quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012


POLÍTICA E RELIGIÃO: DISCUTIR É PRECISO, SIM!
Conforme prevê a Carta da República, promulgada em 1988, a liberdade de escolher religião é direito indiscutível de cada cidadão e está incluído no rol das chamadas “cláusulas pétreas” da aludida Carta, porém o uso de fiéis e religiões em campanhas eleitorais, e no período pós eleição, tornou-se objeto de intensos debates em praticamente todas as cidades brasileiras, além de ser um tema que merece muita reflexão de todos nós.
Importante se faz salientar que nenhum segmento da sociedade está isento de indivíduos nocivos à população, como, igualmente, é importante registrar que é muito grande o número de pessoas de bom caráter em qualquer que seja a denominação religiosa, princípio pelo qual se pode contestar as agressões dirigidas especificamente a uma ou outra religião. Entretanto, é preciso buscar uma forma de conviver com tal fato, visto que isto é inevitável e, ao que tudo indica, infinito...
Muitas pessoas, de modo claro e inescrupuloso, usam abertamente as igrejas e seus fiéis em campanha, sem que haja, por parte dessas igrejas, nenhuma manifestação de proibição do uso de sua imagem, fato que sugere, no mínimo, a aceitação. Em muitos casos, os comícios acontecem dentro das sedes e com total apoio dos fiéis, sendo que não é raro ouvir dirigentes dizendo que seus candidatos são abençoados por Deus. Alguns desses candidatos “abençoados” são, inclusive, réus em diversos processos por desvio de recursos públicos de toda natureza, quando não são ex-apenados do sistema prisional brasileiro.
Mesmo assim, alguns desses ilustres políticos são ovacionados por seus “irmãos”, que dizem que as autoridades são instituídas por Deus e é este o “único” motivo para defendê-las. Ao “confundir” autoridades com delinqüentes, muitos fiéis ignoram a “lei dos homens”, que embora tenha muitas falhas, precisa ser respeitada, sem deixar de questionar as falhas existentes. Ficar esperando que Deus atribua punição aos políticos desonestos não parece ser uma atitude muito honesta, pois, com certeza, a omissão era, e ainda é, uma coisa contestada por Jesus Cristo e por todos os demais representantes de religiões com simbologias distintas.
Algo muito curioso, e muito estranho, ocorre com algumas pessoas que defendem religiões: Quando estão em campanha para eleger seus líderes, dizem que eles são “abençoados”; quando estão eleitos, muitos fiéis aceitam cargos e outros benefícios ofertados por eles, mesmo que não conheçam a origem ou que saibam ser fruto de ações corruptas; quando fazem festas nas igrejas, paparicam políticos corruptos e fazem diversas homenagens. Mas quando os mesmos políticos são pegos em flagrante roubando o povo, os mesmos fiéis dizem que não se metem em política, que não sabem dos fatos, que não julgam ninguém, que os irmãos são perseguidos, entre outras desculpas esfarrapadas. Se não se metem em política, por que fazem propaganda para eleger esses  indivíduos?
Outro fato sobre o qual devemos refletir é que não se vê nenhuma denominação religiosa publicar nenhum documento ou opinião sobre o envolvimento de seus membros em escândalos com dinheiro público. Fica todo mundo caladinho, esperando a coisa andar, mesmo que sejam escândalos de proporções colossais. O direito de ficar em silêncio está previsto na legislação vigente, mas para quem é acusado; aqueles que nada devem deveriam dizer o que pensam sobre os fatos, deveriam dizer se sua religião defende ou não o envolvido e por que defende ou não.
Os partidos políticos agem da mesma forma, ficam calados, defendem seus membros, chamam de lideranças, colocam em cargos de luxo e tudo mais... Então qual seria a diferença entre as religiões que fazem isto e os partidos políticos? Absolutamente nenhuma! Para não serem confundidas com partidos ou com políticos, as religiões envolvidas nos fatos deveriam contestar, repudiar, condenar as ações criminosas. Defender as práticas criminosas é incompatível com a doutrina das religiões e contraditório, se compararmos com os princípios constitucionais da moralidade, da impessoalidade, da legalidade, da eficiência, da publicidade, isto para não citar outros dispositivos legais que são infringidos apenas por pessoas sem nenhum caráter...
Existem, também, religiões cujos fiéis não são autorizados a serem candidatos, ou , quando são , não podem usar o nome da denominação. Contrariamente a este fato, existem lideranças religiosas que não conhecem nenhuma norma ou doutrina da religião onde militam, mas conhecem todos os artigos, incisos e alíneas da legislação eleitoral e atuam bravamente em todas as eleições, defendendo candidatos e chamando de “irmãos”... Não podemos esquecer as lideranças religiosas que chegam a ameaçar de expulsão fiéis que não votarem nos “irmãos”... Que coisa estranha!!
Outro fato merecedor de reflexão é que no Congresso Nacional existe até a chamada “Bancada Evangélica” sendo que, naquela Casa Legislativa, este tipo de instituição não tem nenhuma utilidade, a não ser defender interesses escusos de parlamentares que são eleitos para defender a coletividade, mas que, não raro, estão envolvidos em quadrilhas especializadas a roubar o dinheiro advindo dos impostos pagos pelos brasileiros...Tudo isso com a sagrada omissão das religiões que elegeram tais políticos.
A decisão de não citar nesta reflexão o nome de nenhuma religião e de nenhum político tem a finalidade de conclamar para esta análise todos  aqueles que defendem a infeliz ideia de que não se deve discutir política ou religião, bem como todos aqueles que reconhecem a urgente necessidade de ampliar o debate sobre o tema e buscar, se não as soluções, que parecem algo inatingível, o entendimento sobre os motivos que levam pessoas, partidos e religiões a praticarem todo tipo de atos que  degeneram a essência humana...
Caso as pessoas não tenham a disponibilidade de refletir sobre estes fatos e, ao persistirem a omissão, a conivência, o protecionismo, a permissividade e outros muitos atos e fatos condenáveis, estamos diante de uma enorme possibilidade de transformarmos nosso país num grande mar de lama “religioso”... Tenho dito!!!

FRANCISCO XAVIER GOMES
Professor da Rede Estadual

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